Exposição - Papéis:caminhos do visível
CASAGALERIA, de 15 de mar. a 8 de mai. l Av. Dr. Cardoso de Melo 758 l Vila Olímpia l São Paulo,SP Tel: 11 3841 9620 l www.casagaleriacafe.com.br l De Segunda a Sexta-feiras das 11 ás 19 hs. P a p é i s : c a m i n h o s d o v i s í v e l
G a b r i e l B o r b a
São Paulo, 1942
P a p é i s : c a m i n h o s d o v i s í v e l
Gabriel Borba é arquiteto, formado pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, artista plástico e um dos pioneiros da videoarte, introduzida no Brasil a partir da década de 1970. Seu trabalho atual, mesmo possuindo um alto grau de generalização, deixa alguns vestígios de visualidades das linguagens midiáticas experimentadas na época, traços de uma história marcada inclusive pelas tensões políticas vividas no meio acadêmico.
Gabriel ganhou o Prêmio Forma de Desenho Industrial em 1977. Expôs seus trabalhos nas X Bienal de Paris, em 1979, e XVI Bienal de São Paulo, em 1981. Tem obras nas coleções dos Museu de Arte Contemporânea da USP, MACUSP, Museu de Arte Moderna de São Paulo, MAMSP, Museum of Modern Art de Nova Iorque, MOMA, Pompidou, em Paris, Centro Cultural São Paulo, CCSP, Itaú Cultural, em São Paulo, além de outras instituições. Foi fundador da Cooperativa Geral para Assuntos da Arte, em 1974, e da Cooperativa dos Artistas Plásticos, em 1978, que gerou o álbum Desenho como Instrumento, considerado como uma publicação de fundamental importância sobre a temática. Foi diretor da Divisão de Artes Plásticas do Centro Cultural São Paulo, CCSP, na década de 1980, onde implantou a programação Seção Corrida e o Escritório de Arte Postal, acervo com mais de doze mil obras, hoje tema de pesquisa de artistas contemporâneos. Foi Consultor de Comunicação e Cultura da Empresa Metropolitana de Planejamento, EMPLASA, onde coordenou a vertente cultural do Plano de Revitalização da Vila Histórica de Paranapiacaba, aplicado com grande sucesso. Atua no MACUSP desde o início dos anos 1990 como arquiteto e museógrafo, responsabilizando-se pelo desenho de inúmeras exposições, além de acompanhar o projeto de reforma do Palácio da Agricultura, hoje Departamento de Trânsito, em São Paulo, futura sede do MAC USP.
Mas todos os indícios de uma carreira profícua não nos permitem passar, sub-repticiamente, de títulos para a linguagem artística construída por Gabriel, a não ser que permaneçamos em sua matéria motivadora, ou seja,
"... no visível no sentido estrito e prosaico: o pintor, qualquer que seja, enquanto pinta, pratica uma teoria mágica da visão".2
E assim, como Gabriel Borba apresenta cerca de trinta trabalhos na exposição Papéis: caminhos do visível, a partir de 13 de março, na Casa Galeria, poderemos ver, como diz o artista, suas diversas trocas com o mundo: entre três objetos, desenhos, também nomeados como desejos e destinos.
Mas como esses objetos e desenhos se deflagram para o artista em sua produção atual?
"A arte é autorreflexiva e mantém relações intersubjetivas, o que exige linguagem. O desenho é linguagem e, como tal, tem estrutura e repertório", afirma Gabriel.3 Aos componentes da estrutura, ou seja, à composição, ao equilíbrio, aos contrastes, à diversidade dos formatos, agrega-se os do repertório, ou os matizes e tons, as luzes, os traços, os pincéis, a sensibilidade dos materiais grafite,
carvão, pastel e dos suportes. No entanto, todos esses elementos não seriam suficientes para que o desenho se torne desejo e destino se não houvesse entre eles certas ligações ou, talvez, se não pairasse sobre eles algumas asas motivadoras,
"... como numa tapeçaria, numa renda, num quadro ou numa fuga, nos quais o motivo puxa, separa, une, enlaça e cruza os fios, traços e sons, configura um desenho ou tema a cuja volta se distribuem os outros fios, traços ou sons, e orienta o trabalho do artesão e do artista".4
E o artista, nesse momento, afirma que o drama, contido no entanto, é seu motivo, sua possibilidade de tecitura: um contraste entre elementos do repertório que, conflitantes entre si, atritam-se para fazer a "com-posição", ou seja, a posição da dimensão original, uma "medida de um dia vivido", que Gabriel quer transformar em objeto, desenho, desejo, destino visível. Nessa transformação, ainda se impõe o ofício do artista: o detalhe, a escolha dos procedimentos e a busca do repertório original. A função encontra o jogo, as rupturas, a contingência, o vir-a-ser e a propagação. O artista encena um texto imaginário e desenha, tecendo ao mesmo tempo cada um dos pólos de um imã: extremos e incompatíveis como são os "dedos e os dados".
Papéis: caminhos do visível transita por impermanências e invisibilidades da própria criação artística. Algumas passagens de visualidades se recortam e se firmam nas séries de desenhos, em que Gabriel, ao aproximar-se desses fenômenos, entrecruza a tela de linho colada sobre o papel e o traço; a tinta e o relevo da linha insinuada. Alguns trabalhos têm título, Cachoeira, Chuvisco, Garoa, Lagoa... Sem nomes, outros dispõem desígnios da pesquisa da caligrafia oriental em aquarela, nanquim, gravações, colagens, tênues traçados de nylon, cortes e perfurações. Moffo e Noturno se apropriam de marcas deixadas no tempo do ateliê, enquanto que os objetos de vidro e linho aglutinam o sal e, simbolicamente, os caminhos percorridos por Gabriel Borba na busca do visível da sua historicidade, sem descartar o acaso, esse "dado do diabo", sal úmido que coagula a existência e deixa marcas no tempo vivido.
Carmen Aranha
Loly Demercian
1(Endnotes) 1.BORBA, Gabriel. Rebustéia. Encarte. São Paulo: Cooperativa Geral para Assuntos da Arte, 1974-2010.
2.Merleau-Ponty, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004, p. 20.
3.Entrevista com Gabriel Borba. 18/02/2010. São Paulo, MAC USP.
4.CHAUI, Marilena. Experiência do pensamento. Ensaios sobre a obra de Merleau-Ponty. São Paulo:Martins Fontes, 2002. P.22.
CASAGALERIAcarvão, pastel e dos suportes. No entanto, todos esses elementos não seriam suficientes para que o desenho se torne desejo e destino se não houvesse entre eles certas ligações ou, talvez, se não pairasse sobre eles algumas asas motivadoras,
"... como numa tapeçaria, numa renda, num quadro ou numa fuga, nos quais o motivo puxa, separa, une, enlaça e cruza os fios, traços e sons, configura um desenho ou tema a cuja volta se distribuem os outros fios, traços ou sons, e orienta o trabalho do artesão e do artista".4
E o artista, nesse momento, afirma que o drama, contido no entanto, é seu motivo, sua possibilidade de tecitura: um contraste entre elementos do repertório que, conflitantes entre si, atritam-se para fazer a "com-posição", ou seja, a posição da dimensão original, uma "medida de um dia vivido", que Gabriel quer transformar em objeto, desenho, desejo, destino visível. Nessa transformação, ainda se impõe o ofício do artista: o detalhe, a escolha dos procedimentos e a busca do repertório original. A função encontra o jogo, as rupturas, a contingência, o vir-a-ser e a propagação. O artista encena um texto imaginário e desenha, tecendo ao mesmo tempo cada um dos pólos de um imã: extremos e incompatíveis como são os "dedos e os dados".
Papéis: caminhos do visível transita por impermanências e invisibilidades da própria criação artística. Algumas passagens de visualidades se recortam e se firmam nas séries de desenhos, em que Gabriel, ao aproximar-se desses fenômenos, entrecruza a tela de linho colada sobre o papel e o traço; a tinta e o relevo da linha insinuada. Alguns trabalhos têm título, Cachoeira, Chuvisco, Garoa, Lagoa... Sem nomes, outros dispõem desígnios da pesquisa da caligrafia oriental em aquarela, nanquim, gravações, colagens, tênues traçados de nylon, cortes e perfurações. Moffo e Noturno se apropriam de marcas deixadas no tempo do ateliê, enquanto que os objetos de vidro e linho aglutinam o sal e, simbolicamente, os caminhos percorridos por Gabriel Borba na busca do visível da sua historicidade, sem descartar o acaso, esse "dado do diabo", sal úmido que coagula a existência e deixa marcas no tempo vivido.
Carmen Aranha
Loly Demercian
1(Endnotes) 1.BORBA, Gabriel. Rebustéia. Encarte. São Paulo: Cooperativa Geral para Assuntos da Arte, 1974-2010.
2.Merleau-Ponty, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004, p. 20.
3.Entrevista com Gabriel Borba. 18/02/2010. São Paulo, MAC USP.
4.CHAUI, Marilena. Experiência do pensamento. Ensaios sobre a obra de Merleau-Ponty. São Paulo:
Martins Fontes, 2002. P.22.
CASAGALERIAcarvão, pastel e dos suportes. No entanto, todos esses elementos não seriam suficientes para que o desenho se torne desejo e destino se não houvesse entre eles certas ligações ou, talvez, se não pairasse sobre eles algumas asas motivadoras,
"... como numa tapeçaria, numa renda, num quadro ou numa fuga, nos quais o motivo puxa, separa, une, enlaça e cruza os fios, traços e sons, configura um desenho ou tema a cuja volta se distribuem os outros fios, traços ou sons, e orienta o trabalho do artesão e do artista".4
E o artista, nesse momento, afirma que o drama, contido no entanto, é seu motivo, sua possibilidade de tecitura: um contraste entre elementos do repertório que, conflitantes entre si, atritam-se para fazer a "com-posição", ou seja, a posição da dimensão original, uma "medida de um dia vivido", que Gabriel quer transformar em objeto, desenho, desejo, destino visível. Nessa transformação, ainda se impõe o ofício do artista: o detalhe, a escolha dos procedimentos e a busca do repertório original. A função encontra o jogo, as rupturas, a contingência, o vir-a-ser e a propagação. O artista encena um texto imaginário e desenha, tecendo ao mesmo tempo cada um dos pólos de um imã: extremos e incompatíveis como são os "dedos e os dados".
Papéis: caminhos do visível transita por impermanências e invisibilidades da própria criação artística. Algumas passagens de visualidades se recortam e se firmam nas séries de desenhos, em que Gabriel, ao aproximar-se desses fenômenos, entrecruza a tela de linho colada sobre o papel e o traço; a tinta e o relevo da linha insinuada. Alguns trabalhos têm título, Cachoeira, Chuvisco, Garoa, Lagoa... Sem nomes, outros dispõem desígnios da pesquisa da caligrafia oriental em aquarela, nanquim, gravações, colagens, tênues traçados de nylon, cortes e perfurações. Moffo e Noturno se apropriam de marcas deixadas no tempo do ateliê, enquanto que os objetos de vidro e linho aglutinam o sal e, simbolicamente, os caminhos percorridos por Gabriel Borba na busca do visível da sua historicidade, sem descartar o acaso, esse "dado do diabo", sal úmido que coagula a existência e deixa marcas no tempo vivido.
Carmen Aranha
Loly Demercian
1
(Endnotes)
1.BORBA, Gabriel. Rebustéia. Encarte. São Paulo: Cooperativa Geral para Assuntos da Arte, 1974-2010.
2.Merleau-Ponty, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004, p. 20.
3.Entrevista com Gabriel Borba. 18/02/2010. São Paulo, MAC USP.
4.CHAUI, Marilena. Experiência do pensamento. Ensaios sobre a obra de Merleau-Ponty. São Paulo:
Martins Fontes, 2002. P.22.
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